Compulsão alimentar: quando o controle foge das suas mãos, ou da sua boca

Costumo dizer que o nosso tempo experimenta tudo que pode, quase que literalmente.

Por que eu digo isto?

Porque nem sempre foi fácil comer o que se queria, na hora que se queria e ao seu próprio gosto. Até o período da Segunda Mundial (1936-1945), a alimentação era restrita para a grande maioria das pessoas, já que não havia produção em larga escala e nem condições ágeis e favoráveis de exportação e importação de todos os tipos de alimentos, como temos hoje. Era, basicamente, o que dava para plantar ou comprar por perto.

De certa maneira, era preciso saber comer. As pessoas tinham consciência de que se exagerassem em uma refeição poderiam ficar ser alimento noutra. Simples. Regra de sobrevivência. Além disso, como a grande maioria dos alimentos não era industrializada, o preparo para uma refeição era mais demorado, não estava tudo pronto, na mão, também como hoje. (Você certamente conhece alguma história na família de pessoas que passavam fome ou muita dificuldade).

Dito isto, podemos presumir que o transtorno da Compulsão Alimentar é um problema recente na história (para sermos mais exatos, 1994, na forma de patologia pela Associação Psiquiátrica Americana), mas ainda não o é pela Organização Mundial da Saúde. É um ramo de estudo recente, mesmo.

O transtorno da compulsão alimentar periódica (TCAP) acontece quando uma pessoa ingere uma grande quantidade de alimentos em um período de tempo delimitado (até duas horas) e quando isso se dá ela sente que perdeu o controle sobre o que comeu e, principalmente, o quanto comeu.

“Para caracterizar o diagnóstico, esses episódios devem ocorrer pelo menos dois dias por semana nos últimos seis meses, associados a algumas características de perda de controle e não acompanhados de comportamentos compensatórios dirigidos para a perda de peso”. (Fonte 2)

Ou seja, é um tipo de descontrole que causa uma posterior sensação de arrependimento porque a pessoa que sofre deste problema perde o controle sobre sua capacidade de se alimentar só até saciar-se. Ela não consegue parar de comer e, depois, fica com culpa, vergonha.

É claro que não se trata de momentos esporádicos: vamos supor que você esteja com vontade de comer uma feijoada e no dia que faz come duas ou três vezes. Isso é comum acontecer, e é aceitável. Mas esses episódios, geralmente, vêm acompanhados com aquela sensação de arrependimento e promessa de “agora vou maneirar”. Como descrito acima num importante estudo de conceituação do transtorno, a compulsão alimentar se caracteriza pela recorrência. Quando este descontrole acontece com frequência.

O grande desafio para ajudar quem sofre deste descontrole é que a pessoa não pode simplesmente parar completamente de comer, como no caso do descontrole para o álcool, por exemplo. Ela precisa aprender a controlar, a comer e conseguir falar “não” para si mesma, mesmo tendo experimentado o sabor da comida e o seu corpo pedir mais e mais.

E não acontece só com certos tipos de alimentos, como doces. É com qualquer coisa que a pessoa goste de comer. Ela pode, suponhamos, almoçar às 12h duas vezes e às 13h30 alimentar-se novamente com a mesma refeição.

Outra coisa curiosa: por ser um fenômeno novo na medicina, ainda não existem estudos concluídos sobre acontecer na infância. Porém, muito médicos relatam tratar crianças que possuem comportamentos muito parecidos com adultos compulsivos: comer a todo o momento, sem limite, e de tudo. Isso acontece, principalmente, por carência de uma boa introdução alimentar e maus hábitos adquiridos nos primeiros e decisivos anos de vida - sabe aquele “docinho” antes do almoço? Então.

“No Brasil, não existem dados a respeito, mas pesquisas realizadas em outros países mostram que a doença acomete em torno de 1,5% da população geral adulta. Se forem selecionados os obesos, dependendo do trabalho, verificou-se que esse número pode subir até 8%, 10%, 12% e, se considerados apenas os obesos grau três, candidatos a cirurgia de redução do estômago, entre 25% e 50% desses pacientes apresentam compulsão alimentar”. (Fonte 1)

Segundo a Sociedade Brasileira de Endocrinologia, a dieta para os casos de compulsão alimentar não deve ser obrigatoriamente feita com base em alimentos de baixo teor calórico porque a pessoa pode ser compulsiva por frutas e legumes, por exemplo. A questão, nestes casos, não é o que se come, mas como [sem controle] e em qual condição [sem perceber o quanto está comendo].

Estudos mostraram que pacientes com compulsão preocupam-se mais com o sobrepeso e a aparência física do que os obesos que não têm compulsão. O estado de culpa é maior.

Reeducação alimentar e bons hábitos, estas são a saída para este problema. Comer “comida de verdade” e na hora certa. Pode não ser tão simples porque os compulsivos precisam de acompanhamento médico, endócrino, nutricional e, em alguns casos, terapêutico (quando a compulsão é desencadeada por algum fator psicológico de ansiedade ou depressão, por exemplo) para conseguir vencer o problema, mas este é o caminho principal.

Como eu disse no início do texto, o fácil acesso a todos os tipos de alimentos possível dificulta o autocontrole, mas ele precisa ser feito. Os nossos hábitos precisam estar alinhados com o nosso relógio biológico, antes que a alimentação fuja do nosso controle.

Quando tratamento nutricional e psicológico não resolvem, entram os tratamentos com remédios.

Atenção: Se você perde o controle do seu apetite por mais de duas vezes por semana em curtos períodos de tempo, procure ajuda médica. Quanto antes o problema é identificado, mais apressadamente se evitam as consequências, como a obesidade.

Conte comigo. Conte com a Alpha Saúde.

E até a próxima!

Fonte:

https://drauziovarella.uol.com.br/entrevistaer-compulsivo/

http://www.scielo.br/pdf/rpc/v31n4/22403.pdf

Dr. Mário Lhano - Endocrinologista e Metabologista CRM 101515, atende há mais de 10 anos e é especialista em dieta vegetariana.

Instagram: @dr.mariolhano

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