No fim das contas: pode ou não pode consumir adoçante no lugar do açúcar?


Você sabe que eu atendo muitos pacientes diabéticos ou pré-diabéticos (já falei sobre esta última condição aqui no blog, mas depois voltarei a falar porque é um assunto relevante). E a mesma questão sempre aparece: adoçante pode?

Resolvi compartilhar aqui com vocês o que respondo a eles pessoalmente: ainda não existe uma resposta objetiva e direta para o assunto, mas é importante tratarmos disso com bastante transparência, principalmente para diabéticos que direta ou indiretamente acabam por consumir alimentos processados com adoçantes.

Essa incerteza já foi bem pior e já gerou muito susto: em 1996 um estudo científico chegou a sugerir que o aumento de casos de tumores cerebrais no mundo era oriundo à crescente popularidade do aspartame (nome científico para adoçante).

A onda de desconfiança foi tão grande que o Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos chegou a realizar um teste com quase 500 mil voluntários com resultados publicados em 2006 e que não encontraram nenhum indício significativo nesta perspectiva - ainda bem!

Um artigo científico publicado em 2016 através da Universidade de São Paulo (USP) afirma que o consumo de açúcar aumentou consideravelmente nas últimas três décadas e, não coincidentemente, os índices de obesidade no mundo, também.

Isso ocorre, segundo o estudo, porque a Densidade Energética (DE) depende da quantidade de gordura ingerida por pessoa e é um importante fator de risco para a obesidade:

“Desse modo, a procura por alimentos com baixa DE ajudaria na redução da ingestão energética e, consequentemente, na manutenção e/ou redução do peso corporal. Uma alternativa ao uso dos açúcares seria a substituição por adoçantes não calóricos, que também aumentam a palatabilidade dos alimentos, porém são isentos de calorias e, portanto, não contribuem para o aumento da DE”.

Pode parecer uma equação simples: menor índice de caloria, menor o crescimento de gordura, mas não é tão básico assim. O que ocorre é que o corpo pode encontrar outras maneiras de recuperar a deficiência de caloria não consumida pelo açúcar. É exatamente por isso que há muita gente no ramo científico e médico pesquisando sobre a influência do consumo de adoçantes no peso e corporal e na ingestão energética. Não há uma única resposta.

Além disso, o processamento do adoçante pelo organismo é feito de maneira diferente para cada tipo de alimento com o qual ele é consumido. Ou seja, tomar café com adoçante é diferente de tomar refrigerante diet, por exemplo. O uso isolado do aspartame não fala por si só - responde distintamente para cada ingestão realizada com ele. Há vários tipos de adoçantes com características próprias e desencadeamentos variados no organismo.

Ademais, a simples perda de peso não diz respeito direto à saúde. Não necessariamente uma pessoa que passa a usar adoçante e emagrece está mais saudável ou com o diabetes controlado, ou, ainda, diminui a predisposição para desenvolver a doença.

Não é uma conta matemática exata.

É por isso que eu avalio cada um dos meus pacientes separadamente. Falamos sobre os seus hábitos alimentares e de vida, a sua rotina, a sua prioridade e analiso os seus exames específicos. É claro que existem os conceitos, estudos e critérios gerais para a medicina, mas é aqui no consultório, diante do paciente e conhecendo as suas necessidades que eu consigo responder a questões como esta: “posso consumir adoçante”?

Depende. Depende de muita coisa. E um acompanhamento endocrinológico é a resposta ideal para respondê-la. Caso fosse fácil determinar os benefícios e malefícios do consumo de adoçante, não seria necessário acompanhamento médico e nutricional.

Veja só essa classificação dos tipos diferentes de adoçante disponibilidade pela Sociedade Brasileira de Diabetes para que fique mais claro entender porque não é “tudo a mesma coisa”. Atualmente são sete os permitidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA):

  • Sacarina: foi descoberta em 1879. Está aprovada para utilização em produtos industrializados e como adoçante de uso geral. Pode ser utilizada também em preparações assadas;

  • Aspartame: foi aprovado em 1981. Atualmente seu uso está liberado como adoçante de uso geral, mas não deve ser utilizado para alimentos que necessitem ser assados. Não pode ser utilizado por pessoas que contenham fenilcetonúria, pois um de seus componentes é a fenilalanina e a ingestão dessa substância deve ser controlada por pacientes com essa doença;

  • Acessulfame de Potássio (Acessulfame – K): Foi aprovado pela primeira vez em 1988. Geralmente aparece nos rótulos dos alimentos como: Acessulfame K, Acessulfame de potássio ou Ace-K. Em 2003 foi aprovado como adoçante de uso geral e intensificador de sabor em alimentos, sob algumas condições de uso. Pode ser utilizado como substituto do açúcar em produtos assados;

  • Sucralose: foi aprovada para utilização como adoçante de uso geral em 1999, sob algumas condições de uso. É encontrada em alimentos como: produtos de padaria, bebidas, chicletes, gelatinas e sobremesas congeladas à base de leite. É um substituto do açúcar para produtos assados;

  • Neotame: a sua utilização foi aprovada em 2002, como adoçante de uso geral e intensificador de sabor de alimentos, mas possui condições para o seu uso. Pode ser utilizado como substituto do açúcar em produtos assados;

  • Estévia: produzida com as folhas de uma planta conhecida como Stevia, encontrada em alguns lugares da América do Sul. Seus testes foram realizados em 2008 e a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece seu uso. Pode ser utilizada como adoçante de uso geral e como substituta do açúcar para produtos assados;

  • Ciclamato: ciclamato foi um dos primeiros adoçantes descobertos, sendo que a sua aprovação também contou com a análise de inúmeros estudos científicos. Hoje, seu consumo é permitido em mais de 50 países na Europa, Ásia, América do Sul, Norte e África. No final da década de 60 e começo da de 70, surgiu a hipótese de que o ciclamato poderia causar câncer de bexiga. Há aproximadamente 475 estudos científicos comprovando que o ciclamato não é carcinogênico. 24 estudos mostraram que, mesmo após ingestões elevadas de ciclamato durante toda a vida, não houve alteração ou formação de câncer em animais de laboratório. Inúmeros estudos também em humanos comprovaram esse mesmo resultado. Por isso, mantém-se a aprovação e dosagem atribuídas ao ciclamato. No Brasil, é permitido também o uso de ciclamato. Pode ser utilizado como substituto do açúcar e para utilização em produtos assados.

Qual adoçante acima é melhor e mais indicado? Não sei. Vou precisar analisar de perto.

Sabemos bem que essa ânsia por resolver tudo muito rapidamente e com respostas prontas não funciona na medicina. E este é mais um assunto dentro desta perspectiva.

Caso você precise de ajuda na sua dieta diabética, me procure. Vamos agendar uma consulta e conversa. Estou aqui para isso. Conte comigo.

Fonte:

https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/02/150204_vert_fut_adocante_ml

https://www.diabetes.org.br/publico/noticias-nutricao/1312-adocantes

http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/6/6138/tde-23102013-160348/pt-br.php

Dr. Mário Lhano - Endocrinologista e Metabologista CRM 101515, atende há mais de 10 anos e é especialista em dieta vegetariana.

Instagram: @dr.mariolhano

#adoçante #alimentação #saúde

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